Saí em direcção a Santa Cruz de la Sierra rumo ao Brasil.
Pensei seguir uma estrada que o Hamish me tinha indicado mas não atinei com a direcção e quando dei por mim já ia numa outra que também dava para o mesmo destino.
Ao fim de uns 90 quilómetros, em Puente Arce, acabou o asfalto e começou uma estrada de terra, não rípio. A paisagem era bonita, subindo e descendo, mas o pó era muito no chão. Parecia manteiga, várias vezes a moto deslizou. Ao cruzar com os camiões era preciso parar pois não se via nada. E quando me aproximava de algum para ultrapassar? O que vale é que não eram muitos e andavam sempre muito devagar nas subidas e descidas.
Até que enfim estrada em condições!
Mas foi sol de pouca dura. Pouco depois começou a chover e a estrada também ficou pior, muitos buracos no asfalto e desabamentos que reduziam a largura a menos de metade nalguns sítios.
A noite aproximou-se rapidamente e na primeira povoação que encontrei, Los Cerros, consegui que me indicassem um “alojamiento” onde ficar. Tinha planeado ir até Samaipata, uns 50 quilómetros mais à frente, mas devido às condições achei melhor parar por ali.
No dia seguinte vi que tinha sido a melhor opção.
O sol voltava a aquecer e a estrada continuava por vales espectaculares com muita verdura e rios com água mas também estava mais degradada. De noite iria ser difícil evitar alguns dos buracos, para mais com a chuva.
Na praça principal havia umas tendas com pessoas em greve de fome como forma de pressão sobre o governo. Querem a devolução de um imposto que teria sido indevidamente utilizado.
Finalmente tive uma refeição de peixe. Após muitos e muitos dias a comer carne e “pollo”, melhor dizendo frango, encontrei um pequeno restaurante que serve peixe, óptimo peixe.
Na Bolívia quase só há “pollo”. Por ser o mais barato toda a gente pede frango e por todo o lado há casas que só servem frango. A carne de “rês” costuma ser dura.
Uma coisa que está a mudar é a temperatura. Durante o dia começa a aquecer e à noite pouco arrefece. Para mim vão começar dias de sofrimento, quando as temperaturas passam dos 27/28 graus já é uma tortura.
Continuei para San José de Chiquitos pensando que teria uma viagem tranquila mas não foi bem assim. Tinham-me dito que a estrada até à fronteira com o Brasil estava em obras mas que se podia passar, como vim a confirmar mais tarde. E também me disseram que até San José já estaria toda asfaltada e depois havia vários troços em obras.
Mas era tudo ao contrário.
Saindo de Santa Cruz há uns cinquenta quilómetros de asfalto e no final, em Pailon, há uma ponte para atravessar só com uma via. Tive de esperar quase uma hora que viessem os carros e camiões do outro lado para podermos atravessar os deste lado. Quando chego perto da ponte vejo os trilhos do comboio e penso: tudo na mesma ponte, não admira a demora.
Entro na ponte, só de uma via, e de cada lado dos trilhos há três fiadas de tábuas grossas por cima das travessas. Vou ver se não caio nesta travessia, penso eu, seria um engarrafamento se caísse e como a moto está pesada iria ser o cabo dos trabalhos pô-la de pé outra vez.
Fui seguindo na fiada do meio tentando não me desviar para não enfiar uma roda entre as tábuas. A certo ponto: Ui, falta ali uma tábua na linha do meio e agora?
As travessas estavam mais juntas mas mesmo durante uns metros ainda trepidou um bocado. Mais à frente faltava outra tábua, mas aí já era a segunda…
A ponte teria uns quatrocentos metros de comprimento e no fim era preciso atravessar os trilhos para o outro lado. Um rapaz que ia à minha frente caiu ao tentar. Parei a estudar o melhor sítio e atravessei. Estacionei a seguir e fui ajudar a tirar a moto do meio dos trilhos.
Andei meia dúzia de quilómetros e vi um sinal meio esquisito a dizer San José para o lado direito. Mas afinal como é? A estrada de asfalto segue em frente e eu tenho de entrar numa de terra? Não era isto que eu esperava.
Um letreiro dizia 125 quilómetros de estrada em obras e lá tive de seguir.
Estrada de terra com muitos pontos em que o pó era tanto que não dava para imaginar como seria o fundo da estrada. Parecia mais ou menos liso e por baixo havia pedras e buracos mais fundos. Várias vezes a suspensão da frente bateu no fundo. Eu bem tentava travar quando chegava perto dos buracos mas mesmo assim não dava.
Ah, e quando havia carros ou camiões? Era mesmo impossível andar. Era preciso parar e aguardar um pouco até se conseguir ver alguma coisa.
Era preciso muito cuidado pois nessas zonas de pó às vezes a moto deslizava. Não era como areia em que a roda da frente prende e torce mas desliza lateralmente como se fosse lama.
O calor é que vai aumentando.
A estrada até que já está quase pronta. Nalguns pontos ainda em obras, principalmente nas pontes, é preciso sair do asfalto e andar meia dúzia de quilómetros na terra mas depois volta-se ao asfalto.
A estrada é pouco interessante. A região é muito plana e seca com árvores pequenas. Não se vê muita erva verde apesar de haver gado que até na estrada se alapa e não liga nada ao movimento de veículos.
Os cerca de 250 quilómetros de estrada já estão quase asfaltados e tirando aqueles pequenos desvios nalguns pontos só havia um troço de uns trinta quilómetros que ainda era preciso ir pela estrada antiga.
No Brasil foi mais complicado. Na entrada da fronteira não tinham a Polícia Federal para carimbar o passaporte e tinha de ir ao centro da cidade, a uns quinze quilómetros, para isso e depois voltar para tratar da moto. Eu disse que não tinha jeito nenhum andar para trás e para a frente e um deles telefonou a perguntar se poderia tratar de tudo no centro e eu segui.
Só que no ponto aonde fui também só tratavam dos papéis para a moto, tinha de ir à Polícia primeiro. Lá fui à Policia, na Rodoviária, mas quando cheguei o posto de atendimento já estava fechado. Mas como é…?
Bati no vidro e ao fim de um pedaço lá veio um sujeito novo que apesar de resmungar um pouco me carimbou o passaporte.
Voltei à Receita Federal para me tratarem dos papéis para moto.
Já posso entrar no Brasil!
O que vale é que aqui a cerveja é servida bem fria e sabe bem. Já brindei algumas vezes à saúde dos meus amigos do MCP que à volta de umas cervejas se preocupam se a minha moto vai aguentar muitos mais quilómetros. Espero bem que sim e conforme disse antes de vir o limite da viagem será a saúde e o dinheiro. Se eu tiver saúde e a moto não enquanto for tendo dinheiro para a consertar vou continuando. Quando só tiver dinheiro para pagar o nosso regresso aí penso em voltar. Por agora ainda não estou mal de todo.
O que tem andado um pouco mal são as minhas máquinas fotográficas. Estão as duas a ficar com as funções avariadas, mas enquanto funcionarem vão andando. Entretanto vou vendo se encontro uma de susbtituição.
Agora quero descobrir o Brasil, apesar de não estar nos meus planos iniciais.
Corumbá, S 19º 00,459’ W 57º 39,047’