quarta-feira, julho 09, 2008

De Uyuni a S. Pedro de Atacama

Na última semana em Uyuni apenas a véspera de S. João foi diferente do normal. Como faz muito frio pela noite dentro as pessoas acenderam fogueiras por todo o lado. Com o Nuno e a Joana juntei-me a um grupo perto do hotel onde estava. Sempre com uma bebida na mão íamos conversando sobre tudo e mais alguma coisa.
Conheci dois guias, o Carlos e o Edgar, que fazem a volta pelas lagunas até à fronteira do Chile. Disseram-me que deveria fazer esse circuito pois era muito interessante apesar de as estradas serem bastante fracas e com mau piso.
Durante estes dias as conversas com o Nuno e a Joana serviram para ter uma ideia do que me espera mais para a frente.
A Carola, alemã que conheci em Viedma, queria fazer essa travessia e não queria ir só. Eu tinha-lhe dito que não estava muito inclinado a fazê-la mas depois de conversar com estes guias resolvi enviar-lhe uma mensagem dizendo para vir até Uyuni e poderíamos ir juntos.
Ela estava em Sucre e respondeu-me dizendo que em poucos dias estaria em Uyuni com uma família alemã que conhecera e andava num camião. Também eles queriam fazer esse trajecto.
No domingo ao início da tarde a Carola chegou e um pouco depois também o camião, um velho Mercedes com mais de vinte anos, aparecia por ali. O Jurgen e a mulher, Petra, com a sua pequena Laila de dois anos.
Fomos jantar todos juntos com o Nuno e a Joana.
Na segunda de manhã fomos comprar alguma comida e água para a travessia.
Antes de sair mais uma foto com os portugueses.
A seguir ao almoço saímos para o salar pois eles queriam dormir na ilha Incahuasi e eram perto de cem quilómetros até lá. Montei a minha tenda junto da ilha e fiquei a pensar no que seria passar a noite com a temperatura a descer até aos dez graus negativos como disse um casal que tinha ficado ali na noite anterior. A altitude do salar é de 3.665 metros, o ponto mais alto onde iria acampar e dormir até ao momento.
A Carola iria dormir no camião com os compatriotas.
Consegui sobreviver a uma noite fria de oito graus negativos. A água congelou dentro da tenda.
Pus a moto ao sol para aquecer um pouco a bateria e ser mais fácil começar a andar.
Seguimos para a saída do salar e fomos seguindo a rota que o Chuck me havia dado, mas nem sempre era coincidente.
Em terra firme começou o caminho com pedra solta e areia.
A 3 quilómetros de San Juan caí numa zona de areia. A Carola ajudou-me a pôr a moto de pé.
Na aldeia conseguimos comprar gasolina mas a 5,5 bolivianos por litro. O preço normal ronda os 3,74 bolivianos. Toda a travessia tem cerca de 550 quilómetros e apenas se encontra gasolina nalgumas lojas particulares. Mesmo com um bidão de seis litros que levava não teria autonomia para o percurso todo. Nos primeiros duzentos quilómetros fiz uma média de 7 litros aos cem. A muita areia e a altitude faziam aumentar o consumo.
Ficámos no Alojamiento Licancahur onde um grupo de quatro miúdos nos foi dar as boas vindas cantando algumas canções. Na aldeia um gerador fornecia energia eléctrica das 7 às 9 horas.
Na hora da saída o descanso lateral da moto da Carola partiu-se. Iria ser um problema quando parasse ou se eu caísse e precisasse da sua ajuda.
Seguimos pela borda do salar procurando acompanhar o trajecto que o Chuck me deu. Os trilhos eram vários e num ponto onde deveria ter cortado à esquerda quase não se via o trilho e continuámos em frente. Via-se uma pequena aldeia e pensei que seria apenas o acesso para lá. Ao fim de uns dez quilómetros começou a aparecer lama e a moto escorregava de vez em quando. Num carro que vinha de frente o condutor confirmou que estávamos longe do desvio.
Voltámos atrás e entrámos nessa aldeia, Chiguana, depois de cruzar a linha do comboio. Mais parecia apenas um quartel militar que uma aldeia normal.
O trilho continuava junto da linha do comboio e depois cortava à esquerda para entrar na montanha. A estrada ia subindo e começaram as pedras e areia. Nalguns pontos havia uns trilhos alternativos que nem sempre eram melhores.
Numa zona de pedra a moto fugiu um pouco e o cárter deu uma pancada numa pedra e fui ao chão. Caí num sítio que até nem seria dos mais complicados. A Carola estava para a frente e tive que esperar pelo Jurgen para me ajudar a pôr a moto de pé. Nesta ocasião levou alguma da minha bagagem no camião.
Ao fim de uns quilómetros havia uma estrada nova e respirámos de alívio pensando que agora seria melhor para andar.
Uns dois ou três quilómetros à frente era necessário sair dessa estrada e voltar a um caminho estreito e com muita areia. Pouco depois começava uma subida com curvas e muita pedra e foi mais uma queda. Tive que tirar a mala direita para conseguir pôr a moto de pé. A Carola ao arrancar também caiu e tive de ajudá-la.
Fomos sempre subindo até cerca dos 4.300 metros.
Andámos um pouco mais e resolvemos ficar aí em plena montanha para passar a noite. Penso que foi próximo do vulcão Ollagüe.
O Jurgen disse que podia dormir na cabina do camião e assim não precisei de montar a tenda. O chão era de muita pedra com areia por baixo, muito parecido com saibro.
Nesta ocasião estávamos nos 4.200 metros de altitude.
Depois de uma noite gelada o dia começou com muito frio. No altiplano, como chamam a esta região, as noites são sempre muito frias havendo muitas em que as temperaturas baixam até aos quinze ou vinte graus negativos.
Ao fim de uns quilómetros caí numa descida com muita pedra. Valeu-me um turista que seguia num jipe logo atrás de mim. Saiu e ajudou-me a pôr a moto de pé.
Atravessámos zonas com muita pedra pequena por cima de uma espécie de saibro.
Ao chegar à laguna Hedionda havia bastantes jipes com turistas. Apenas alguns flamingos na lagoa. Nesta época de inverno migram quase todos.

Nem sempre se podia apreciar a paisagem pois era preciso ir sempre com os olhos na estrada por causa da areia ou pedras. O piso tipo lavadouro era uma constante e muitas vezes também com areia e pedras. Continuámos no meio de muita areia a subida até à “Arbol de Piedra”. Meia dúzia de quilómetros antes a Carola fica sem gasolina. Começámos, com uma garrafa de água de meio litro, a tirar da minha moto para a dela mas pouco depois chegou o Jurgen com o camião e a reserva de gasolina. Um jipe tinha parado mas não tínhamos bidão para a transferência.
Na Arbol de Piedra a Carola limpou o filtro do ar mas mesmo assim a moto estava a trabalhar mal e gastava muita gasolina. Estávamos a rolar quase sempre acima dos 4.300 metros.


Antes da laguna Colorada a minha moto pede a reserva e pouco mais à frente nova queda numa zona de areia. Consegui pôr a moto de pé sem tirar as malas.
Na entrada para o Parque Natural Eduardo Avaroa, junto da Laguna Colorada, tivemos de pagar trinta bolivianos cada um. Aí conseguimos mais alguma gasolina a 6 bolivianos. Os jipes dos turistas transportam gasolina e depois de atestarem os seus depósitos sobra alguma que podem vender. Mais uma vez calculei que o consumo andaria nos 7 litros por cem quilómetros.
Já era o final da tarde e fomos dormir num miradouro sobre a lagoa.
Mais uma noite fria no altiplano, dentro da cabina do camião.

Disseram que a estrada seria melhor a partir daqui mas continua igual. Muita areia e o piso tipo lavadouro que às vezes é bem profundo.
Fomos continuando e subindo, sempre com areia e pedras, até ao posto fronteiriço para controlo dos veículos. A moto da Carola não conseguia subir. Muito devagar lá ia andando mas muito a custo. Voltou a limpar o filtro do ar mas mesmo assim custava a andar.
Na zona dos 4.900 metros parou mesmo e ela seguiu no camião. A minha foi subindo mas nos 5.000 metros foi preciso ir muito devagar e em primeira velocidade. 5.020 metros era o indicado na Aduana mas o GPS indicava 5.035 metros.
Voltámos novamente ao saibro e a descer até perto dos 4.400 metros.
Ao chegar à zona dos “geysers” havia um primeiro que mais parecia um tubo a descarregar vapor. Ouvia-se mesmo aquele som profundo.
No meio do cheiro do enxofre dava para ver o vapor de água a subir. Em muitos pontos a água borbulhava a ferver.


Ficámos na Laguna Salada. Consegui arranjar um quarto para dormir numa casa que tinha um espaço onde os turistas que vinham nos jipes tomavam o pequeno almoço.
Soube bem dar um mergulho numa pequena piscina com água quente depois de tantos dias sem um duche.
Na casa onde fiquei não havia electricidade e a partir das sete e meia fechavam a porta. Tive de me deitar cedo, mas já era costume nestes últimos dias. Às seis e meia já é noite e faz frio.
Pelas sete da manhã os jipes com turistas começaram a chegar. Paravam para um pequeno almoço depois de passarem pelos geysers. Num dos jipes vinha o Carlos, guia que conheci em Uyuni na noite de S. João.
Como normalmente saíamos pelas onze horas, aproveitei para dar uma limpadela no filtro de ar. Estava cheio de pó.
Fomos continuando para a fronteira e já próximo seguimos até à laguna Verde. Muito bonito com o vulcão Licancabur ao fundo. Aproveitámos para fazer uma foto do grupo.

Subimos outra vez até ao posto fronteiriço, nos 4.300 metros. Desta vez para controlo das pessoas.

Uns três quilómetros depois estava a estrada de asfalto para S. Pedro de Atacama.
Sempre a descer por trinta quilómetros até aos 2.400 metros. Descida impressionante. Os camiões em sentido contrário subiam a passo de caracol.
No posto fronteiriço em S. Pedro esperámos um pedaço pelo camião que teve problemas de travões na descida, mas chegou bem.
Na cidade conseguimos encontrar um parque de campismo depois de umas voltas. Fomos jantar para comemorar a travessia. Foram uns dias duros mas no final estávamos todos contentes por termos conseguido chegar sem problemas de maior.
Apesar de estarmos uns dois mil metros mais baixo as noites ainda são frias. Durante o dia até faz calor.
Quando perguntei onde poderia lavar a moto o dono do camping disse que tinha uma máquina de pressão e lavou-nos as motos. Lubrifiquei a corrente que bem precisava.
Agora vou tentar dar uma volta pelos arredores e depois seguir para a costa do Pacífico a ver se faz menos frio.

KM 16657, S. Pedro de Atacama, S 22º 54,802’ W 68º 12,035’

11 comentários:

fernando_vilarinho disse...

Porra Queirós! So tenho uma palavra a dizer: MAGNÍFICO!
Bem vou dizer mais algumas já que tiveste tanto trabalho a contar todas estas aventuras...
Das muitas aventuras que passaste até hoje aí na América do Sul esta foi a que eu mais 'invejei', mesmo mais que a tua passagem pela Terra do Fogo, a Patagónia ou o Deserto de Atacama. Até li duas vezes este teu post que tem pormenores deliciosos e estupendos.
Apesar das dificuldades e contratempos é mesmo fantástico atravessar aí as lagunas e com excelente companhia.
Obrigada por partilhares connosco as tuas vivências e impressões por essa terras, bem exóticas para nós.

Big Abraço e votos do melhor para tudo o que vem a seguir.

Anónimo disse...

queirós, tenho que deixar de ler as tua cronicas, senão, qualquer dia tou eu ao pé de ti.
Esta foi das cronicas que mais me misturou com a realidade que tás a viver.
Um abraço e vai te portando bem.
Nuno (Moncorvo)

Anónimo disse...

Valeu bem a espera!
Esta crónica está magnífica.
A carola foi dormir para o camião?
Ainda bem que nos poupaste aos "pormenores".
Diverte-te e Boa Viagem

Graciano

O calor. O calor disse...

Ah Queirós, que isto agora está a aquecer! Apesar das noites frias.
Então agora vamos (sim, nós também lá chegaremos com a próxima crónica) para a "costa do Pacífico", que é assim como quem diz: É já ali.
Não é demais dizer que o cronista e o fotógrafico está a ficar muito apurado. Mas é um ir com os textos e as imagens.

Um abraço,

Miguel Ângelo

Anónimo disse...

Fonix, Queirós!!
Desertos a 5030 metros de altitude?
Noites seguidas a dormir com essas temperaturas negativas?
Realmente esta ligação fez-nos sentir pequeninos. As nossas passeatas são de totós à beira desta travessia que acabaste de fazer com a Carola. Não há fotos dela? Em que moto ela ía que nem percebi bem?

Um grande abraço e Muito Obrigado pelos relatos e fotos.
Boa Viagem!
Nestes

jafqajafqa disse...

impressionante , Queirós!

bom caminho, companheiro !

JFAlves disse...

Ainda bem que mudaste de ideias e fizeste mesmo essa passagem.
Era realmente imperdível!!
Tanto para ti como para nós, a já grande trupe de teus fieis seguidores ;-)
Como disse o Nestes, este relato faz-nos sentir pequeninos, bem como aos nossos passeios.

Um dos pormenores que fiquei a pensar foi na limpeza do filtro de ar. Na minha Transalp preciso de desmontar meia moto para lhe chegar...
A Honda tem vido realmente a "ligar o complicómetro"!

Continuação de muito boa viagem!!

Anónimo disse...

Great Queirós

Foste lembrado na dsicursalhada do Jantar de 22º Aniversário do Moto Clube do Porto.
Foi há 4 dias, na Penha de Guimarães, com 103 convivas.
De seguida fomos para a "Morcegada", na 17ª edição.
Outro passeio de Totós se comparado com as tuas aventuras.
Um grande abraço!!

Nestes

cancruz disse...

Olá Tone

Impressionante essa viagem! Ainda bem que os tombos são só da mota...
Importa que estejas bem para poderes continuar enquanto te sentires com vontade.
Bom, por cá nestes dias não te estado muito calor (só agora há 2 ou 3 dias é que aqueceu), mas nada que se compare com dormir na tenda com 8 graus negativos.
Um Grande abraço
Cândido

Mototurismo a Norte disse...

Queirós,
Como eu dizia há algum tempo, estás a escrever cada vez melhor. Ainda dás em romancista!
Grande descrição! Continuo cheio de inveja. As Américas são para nós, de facto, o Novo Continente. O lugar do sonho.
Um grande abraço
Pedro Lopes

Anónimo disse...

Grande aventureiro Queiroz.
Assim como tu, tambem já andei por essas bandas, e não há maquina fotog, por melhor que seja para traduzir o que conseguimos ver, voce esta de parabens, bela dicestação, talvez nem camoes fizesse melhor, vou continuar a acompanhar-te.
Germano
(estivemos ai, eu e +2 amigos em abril 09